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Mostra Douglas Sirk no CCBB

Confesso ter admiração por gente que é obrigada, por profissão, a escrever a toque de caixa ao mesmo tempo em que faz duzentas outras coisas, como é o caso do Luiz Carlos Merten, do Estadão, que manda hoje um texto de 8 parágrafos sobre a Mostra Douglas Sirk no CCBB de São Paulo enquanto corre pra lá e pra cá na cobertura in loco do Festival de Cannes.

Mas o leitor do jornal precisa ser capaz de entender o que o jornalista escreve, coisa que não acontece no último parágrafo do tal texto sobre Sirk. Às aspas, com os colchetes por conta da casa: "Na entrevista a [Jon] Halliday, Sirk conta que ficou amigo de Budd Boetticher [cineasta famosos pelos faroestes]. Encontravam-se nos corredores do estúdio. Sirk perguntava - 'O que você está fazendo, Budd?'. 'Só um condenado western', era, invariavelmente, a resposta. 'E você?' 'Um condenado melodrama', respondia Sirk. Brincavam entre si, mas o 'condenado' não era acidental. Os westerns de um, os melodramas de outro são espelhos de uma sociedade que iria enlouquecer em seguida."

"Condenado"?? Não sei de onde ou de que tradução o Merten tirou essa, mas o texto com a entrevista do Sirk diz o seguinte:
(...) I'd say to him, 'Hi there, Budd, what are you doing?'. And he'd say, 'Hi there, Doug, oh just some lousy old Western - how about you?' And I'd say, 'Oh, just some old lousy melodrama'.

Tirante essa irritação matinal, o que eu queria mesmo era que o Amigo Irmão Caminhoneiro De Alma Sensível que lê este blog separasse um tempo na dura labuta e fosse ao CCBB nos próximos dias, pra ver em tela grande qualquer uma das 29 maravilhas selecionadas para a Mostra. Ver é bem o verbo: o Amigo terá, na sua frente, uma seqüência inesgotável dos mais lindos enquadramentos que há, com direito a rimas visuais malucas, profusão de espelhos, quadros dentro de quadros que recortam o plano, gruas delicadas que nos fazem olhar para aqueles personagens miseráveis como se fôssemos divindades incapazes de ajudá-los, enfim, é um festa para corações e olhos sensíveis.

Com a palavra, o Mestre: "Mesmo no teatro, a história não é importante. Pense em todas as histórias tontas de Shakespeare e compare-as com Walter Scott... O que conta é a linguagem. E, no cinema, a linguagem tem de ser assumida pela câmera - e pela montagem. É preciso escrever com a câmera. (...) 'Written On The Wind' e 'Summer Storm' começam pela conclusão. Supõe-se que o espectador saiba aquilo que o espera. É um tipo diferente de suspense ou de anti-suspense. O público é forçado a desviar sua atenção para o como em vez do quê, para a estrutura em vez da trama narrativa, para as variações sobre um tema, para os desvios do tema, em vez do tema propriamente dito" (do catálogo da Mostra Douglas Sirk realizada pela Cinemateca Portuguesa em 2002).

posted at 11:53:19 on 16-05-2012 by Zeno - Category: Filmes esquisitos


Comentários

Zeno Meticuloso wrote:

Ah, sim, descobri de onde o Merten tirou a curiosa expressão "condenado melodrama". Da tradução em espanhol do livro de entrevistas com o Sirk:

"Uno que me gustaba mucho en la Universal era Bud Boetticher. Estaba a menudo en el plató contiguo al mío, y nos encontramos por la mañana, camino del trabajo, y yo le decía: “Eh, Bud, ¿qué estás haciendo?”. Y él decía: “Eh, Doug, oh, sólo un condenado western. Y tú, ¿qué haces?”. Y yo decía: “Oh, sólo un condenado melodrama”. Y seguíamos nuestro camino."

Achei aqui: http://www.cinencuentro.com...
16-05-2012 15:07:37

Zeno Chato wrote:

Só mais uma irritação, vocês me desculpem: leio uma entrevista do curador da mostra do Sirk, que manda esta:

"Como surgiu a ideia de uma Mostra sobre Douglas Sirk?

Eu conheci a obra de Douglas Sirk na França, na Cinemateca, em 2006. Havia uma retrospectiva lá sobre o cineasta. Até então, nunca tinha ouvido falar dele e não conhecia profundamente o cinema americano."

Antes de mais nada, qualquer pessoa que tenha a iniciativa de trazer uma mostra dessas para o Brasil merece ser enaltecido. Também não há problema algum em tomar contato com a obra do Sirk em 2006, se você A) tiver 20 e poucos anos em 2006 e B) não se ocupar de cinema a não ser como espectador distraído. Me parece que nem A nem B ocorrem com o curador, pelo seu currículo resumido. Agora, não conhecer o "cinema americano", realmente, é daquelas frases que denunciam um ranço boboca que só um lapso desses de entrevista, que acometem a todos, pode justificar.
16-05-2012 17:01:46

smileytelho wrote:

nem conheço mas já emputeceu, o 'profundamente' aí tem é um p. ranção snobish.
o cara deve ter doutorado em cinema de vanguarda nepalez.
16-05-2012 17:12:56

Zeno Agenda Positiva wrote:

Bom, dos 29 filmes programados, 7 são em DVD, então é melhor, nestes casos, ficar em casa. Dos 22 restantes, em 16mm ou 35mm, só vi a metade, então não dá pra falar com propriedade. Mas dá pra apontar alguns incontornáveis, em ordem cronológica, se o tempo for escasso:

--1953 Desejo Atroz/All I desire (16mm)
--1956 Chamas que não se apagam/There’s always tomorrow (35mm)
--1956 Tudo o que o céu permite/All that heavens allows (35mm)
--1957 Palavras ao Vento/Written on the wind (35mm)
--1958 Amar e Morrer/A time to love and a time to die (35mm)
--1958 Almas Maculadas/Tarnished Angels (35mm)
--1959 Imitação da Vida/Imitation of life (35mm)

Se o tempo for muito escasso, a escolha recairia sobre "Tarnished Angels" e "All that heaven allows". Se o tempo estiver abundante, eu iria conhecer os seis filmes da fase alemã do Sirk, todos em 35mm, que nunca vi.
16-05-2012 17:51:21

Zeno Agenda Positiva 2 wrote:

Segue a lista dos filmes, já que o site do CCBB não dá os anos de produção nem os títulos em inglês/alemão:
*1935 April! April! (82 min. | 35mm)
*1935 A garota do pântano/Das Mädchen von Moorhof (82 min. | 35mm)
*1935 Os pilares da sociedade/Stützen der Gesellschaft (84 min. | 35mm)
*1936 Onde canta o rouxinol/Das Hofkonzert (85 min. | 35mm)
*1937 Recomeçar a Vida/Zu neuen Ufer (106 min. | 35mm)
*1937 La Habanera (98 min. | 35mm)
*1944 O que matou por amor/Summer storm (106 min. | 16mm)
*1945 Vidocq/A scandal in Paris (102 min. | DVD)
*1946 Emboscada/Lured (102 min. | DVD)
*1947 Sonha, Meu Amor/Sleep my love (97 min. | 16mm)
*1949 Apaixonados/Shockproof (79 min. | 16mm)
*1950 O Poder da Fé/The first legion (86 min. | 35mm)
*1951 Agonia de uma vida/Thunder on the hill (84 min. | 16mm)
*1952 Sinfonia prateada/Has anybody seen my gal? (88 min. | 16mm)
*1952 E o Noivo Voltou/No room for the groom (82 min. | DVD)
*1953 Música e Romance/Meet me at the fair (87 min. | 16mm)
*1953 Mulher de Fogo/Take me to town (81 min. | 16mm)
*1953 Desejo Atroz/All I desire (79 min. | 16mm)
*1954 Herança Sagrada/Taza, son of Cochise (77 min. | DVD)
*1954 Sublime obsessão/Magnificent Obsession (108 min. | 35mm)
*1955 Sangue Rebelde/Captain Lightfoot (91 min. | DVD)
*1956 Tudo o que o céu permite/All that heavens allows (89 min. | 35mm)
*1956 Chamas que não se apagam/There’s always tomorrow (84 min. | 35mm)
*1957 Palavras ao Vento/Written on the wind (99 min. | 35mm)
*1957 Hino de uma consciência/Battle Hymn (108 min. | DVD)
*1957 Sinfonia interrompida/Interlude (90 min. | DVD)
*1958 Almas Maculadas/Tarnished Angels (91 min. | 35mm)
*1958 Amar e Morrer/A time to love and a time to die (132 min. | 35mm)
*1959 Imitação da Vida/Imitation of life (Sirk | 125 min. | 35mm)
16-05-2012 17:53:44

Rachel wrote:

Chocada com o comentário do curador. Se ainda fosse um diretor obscuro do Congo, que tivesse filmado nos anos 2000, vá lá ter descoberto em 2006. As pessoas não conseguem mais sequer disfarçar a ignorância
17-05-2012 09:49:04

Zeno Não Sei E Me Orgulho Disso wrote:

Não sei se se aplica ao curador em questão, mas eu tenho um carinho especial por quem divulga em caixa alta a própria ignorância - tem sido tão freqüente nos últimos tempos...
17-05-2012 09:57:11


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