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16 Maio

Mostra Douglas Sirk no CCBB

Confesso ter admiração por gente que é obrigada, por profissão, a escrever a toque de caixa ao mesmo tempo em que faz duzentas outras coisas, como é o caso do Luiz Carlos Merten, do Estadão, que manda hoje um texto de 8 parágrafos sobre a Mostra Douglas Sirk no CCBB de São Paulo enquanto corre pra lá e pra cá na cobertura in loco do Festival de Cannes.

Mas o leitor do jornal precisa ser capaz de entender o que o jornalista escreve, coisa que não acontece no último parágrafo do tal texto sobre Sirk. Às aspas, com os colchetes por conta da casa: "Na entrevista a [Jon] Halliday, Sirk conta que ficou amigo de Budd Boetticher [cineasta famosos pelos faroestes]. Encontravam-se nos corredores do estúdio. Sirk perguntava - 'O que você está fazendo, Budd?'. 'Só um condenado western', era, invariavelmente, a resposta. 'E você?' 'Um condenado melodrama', respondia Sirk. Brincavam entre si, mas o 'condenado' não era acidental. Os westerns de um, os melodramas de outro são espelhos de uma sociedade que iria enlouquecer em seguida."

"Condenado"?? Não sei de onde ou de que tradução o Merten tirou essa, mas o texto com a entrevista do Sirk diz o seguinte:
(...) I'd say to him, 'Hi there, Budd, what are you doing?'. And he'd say, 'Hi there, Doug, oh just some lousy old Western - how about you?' And I'd say, 'Oh, just some old lousy melodrama'.

Tirante essa irritação matinal, o que eu queria mesmo era que o Amigo Irmão Caminhoneiro De Alma Sensível que lê este blog separasse um tempo na dura labuta e fosse ao CCBB nos próximos dias, pra ver em tela grande qualquer uma das 29 maravilhas selecionadas para a Mostra. Ver é bem o verbo: o Amigo terá, na sua frente, uma seqüência inesgotável dos mais lindos enquadramentos que há, com direito a rimas visuais malucas, profusão de espelhos, quadros dentro de quadros que recortam o plano, gruas delicadas que nos fazem olhar para aqueles personagens miseráveis como se fôssemos divindades incapazes de ajudá-los, enfim, é um festa para corações e olhos sensíveis.

Com a palavra, o Mestre: "Mesmo no teatro, a história não é importante. Pense em todas as histórias tontas de Shakespeare e compare-as com Walter Scott... O que conta é a linguagem. E, no cinema, a linguagem tem de ser assumida pela câmera - e pela montagem. É preciso escrever com a câmera. (...) 'Written On The Wind' e 'Summer Storm' começam pela conclusão. Supõe-se que o espectador saiba aquilo que o espera. É um tipo diferente de suspense ou de anti-suspense. O público é forçado a desviar sua atenção para o como em vez do quê, para a estrutura em vez da trama narrativa, para as variações sobre um tema, para os desvios do tema, em vez do tema propriamente dito" (do catálogo da Mostra Douglas Sirk realizada pela Cinemateca Portuguesa em 2002).
11:53:19 - Zeno -

17 Julho

Tudo o que o céu permite (1956)

A Ilustrada de hoje dá destaque, na seção de filmes na TV, à exibição desta obra-prima de Douglas Sirk pelo canal Telecine Classic, às 20h20. O filme, na modesta opinião do nosso bloguezinho, é das melhores coisas feitas pelo Mestre Sirk (junto com "Almas maculadas" - Tarnished angels -, que também costuma ser exibido pelo canal), e se o clichê não fosse tão surrado, um dos filmes mais lindos da história do cinema, com um uso inteligentíssimo das cores que são atribuídas a cada personagem. É tudo tão azeitado e perfeito que a horrorosa refilmagem disfarçada feita por Todd Haynes há dois anos ("Longe do paraíso") deveria pedir desculpas por existir e por ofender a nobre causa dos Defensores Inexistentes de Douglas Sirk. Mas o mote deste post é o Rock Hudson, que faz o papel principal deste "Tudo o que o céu permite". Não sabemos como andava a engrenagem de fofocas hollywoodianas da época, mas ver hoje em dia os filmes do rapaz à luz da história do homossexualismo traz sempre umas pitadas (in)voluntárias de humor. Num outro filme de Hudson, a comédia "Um favor muito especial", de 1965 (obviamente inferior ao de Sirk, mas que se garante na despretensão), ele faz o papel de um Don Juan que, para conquistar uma psiquiatra bonitona e relutante vivida por Leslie Caron, finge sofrer de um trauma psíquico causado pelo excesso de assédio feminino, o que proporciona ao filme momentos divertidos do ator mostrando seu desinteresse pelas mulheres. No filme de Sirk, há um diálogo rápido entre o jardineiro (Hudson) e a viúva (Jane Wyman) em que ele a incentiva a enfrentar a sociedade do vilarejo que se opõe à união de ambos (por ele ser mais jovem que ela e por não ter um tostão). A resposta dela é mais ou menos assim: "Eu sei o que você quer, Ron. Que eu seja forte como um homem, não é?". Como esse, há mais dois ou três diálogos ou frases de duplo sentido que fazem a delícia dos ouvidos informados de hoje, o que leva a pensar que os roteiristas da época só podiam estar de gozação com o coitado do Hudson. Ou que ele era conivente nas brincadeiras, o que é ainda melhor.
12:54:42 - Zeno -

07 Janeiro

Vidocq, um escândalo em Paris (1946)

"Eu venho de uma família pobre e honesta. Na verdade, mais pobre que honesta."

George Sanders, no papel de Eugéne François Vidocq, o escroque-que-vira-chefe-de-polícia no divertido filme de Douglas Sirk (passa de quando em vez no Telecine Classic da Net).

(crdt bertrand tavernier e jean-pierre courdoson, 50 ans de cinéma américain)
07:48:00 - Zeno -

19 Maio

Heinz

Salsichas rubras, brancas e suculentas, mulheres e homens suarentos em busca da Diversão Última, espalhados por mesas a céu aberto cobertas de hectolitros de chope cremoso que vaza pelos cantos das bocas, mostardas claras, escuras e em semi-tons brueghelianos, repolhos entumescidos nos pratos e em restos espalhados pelas calçadas - não, não é o curta-metragem feito por Rainer Werner Fassbinder como trabalho de conclusão de curso na Academia Cinematográfica de Munique, onde foi aluno de Douglas Sirk. É o Heinz, bar santista respeitabilíssimo que há anos justifica excursões etílicas BIP (como dizia o Jaguar) de moradores do planalto em busca de seus acepipes alemães e do chope irrepreensível. Embora mista, a fauna que o freqüenta costumava ser conspurcada por professores de arquitetura condenados ao exílio por mau comportamento em bares paulistanos - mas esse tempo já passou. Qual Sócrates forçado a escolher entre o ostracismo ou a cicuta (vulgo água mineral), um deles resumiu bem as dificuldades da distância SP-Santos: "Duro mesmo era subir mamado a Imigrantes - Anchieta nem pensar, curvas demais!! -, na última faixa à direita, pianinho, pianinho, a 30 por hora".

Nota: 9 graals + grana pro pedágio.

(crdt a. puntoni, que me apresentou ao bar)
07:18:43 - Zeno -