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"Talvez um Prozac, doutor?"

Você está num restaurante, por hipótese. Do lado de fora, um casal de mendigos famélicos, com um bebê de colo, esmola com o nariz bafejando a vitrine. Pela porta, uma turma de alunos VIPs egressos, por hipótese, da Casa do Saber (vide posts abaixo) adentra com a comoção de praxe.

Oprimido como já está, você se vexa, sabe que não pertence a nenhum dos dois extremos, preferia não ter nunca nem que conviver com eles —não no mesmo espaço, não no mesmo país, não no mesmo planeta—, mas não lhe resta escolha. Você está ciente de que sua atual condição é tão transitória quanto ameaçada: ou você peleja rumo a um dos pólos (o de cima, bem certo) ou será tragado pelo outro. A sua realidade é tão binária quanto a do seu microcomputador. Você se certifica que não está tendo um pesadelo. Não está. Não é impressão a sensação de que não haverá mais meio termo, isso é certeza. Também não está preso a um enredo ficional: é aquilo mesmo. Você percebe seu espaço cada vez mais invadido por essas duas legiões antípodas. Doravante, aonde quer que vá, quaisquer que fossem seus refúgios intocados, do lado de dentro você irá trombar com a empáfia cafona e opressora de uns, do lado de fora tentará escapar ao assédio criminoso e persecutório (à sua consciência, pelo menos) dos outros. Vai ser zero ou vai ser um? Você saberia a resposta, se antes pudesse saber o que nisso é zero, o que nisso tudo é um.

O gelo derretendo, a maré subindo, o tempo passando mais rápido e você parado sem saber o que é que faz.
posted at 19:16:11 on 16-03-2005 by Pinto - Category: Microcontos


Comentários

Cam Seslafluoxetina wrote:

Si, dame dos.

(I love you, beibe. Até sábado!)
16-03-2005 21:10:43

Cynthia wrote:

É por causa de textos como esse que eu sou assim - fica feio dizer que sou Pintófila ? Então sou Leófila, tá ? - leofilizada... ;o)
17-03-2005 10:38:49

Clarice wrote:

O que é que faz só seu coração e indignação dizem, mas eu sei muito bem o que faço agora: levanto e aplaudo você.
Tem coisas que a gente deixa de fazer e que não há jeito dos neurônios apagarem. Por pura convenção, há mais de 15 anos, já deixei que o garçon levasse aquele último camarão que ficou no prato e que dois pares de olhos pidões mais que comiam de longe. Claro que nunca mais deixei que a cena se repetisse, mas você veio rebatizar a cena.
Cynthia é a presidente do fã-clube, mas estamos aqui na zona do gargarejo, ora se não!
;}
17-03-2005 10:57:12

Pinto wrote:

Agradeço, meninas, mas lo siento: minha personal psychiatrist falou que não é bem assim que a banda toca e que devo estar é deprimido mesmo...
17-03-2005 11:22:29

Ai! wrote:

Pinto,

Diga a ela pra se submeter ao que há de bom em você e que apareceu muito bem neste texto, duro e sublime, ao mesmo tempo.
17-03-2005 12:04:06

Christiana wrote:

A vida anda uma merda mas o Pinto salva!
17-03-2005 13:11:46

Cam Seslaf wrote:

Eu sou Pintófila mesmo, Cynthia!
Minha jóia, com você, só na elegância... ;D
17-03-2005 17:18:30

Capiroto wrote:

Oras, Pinto que se preza é mesmo ultra-sensível!
17-03-2005 17:27:32


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