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Sem título

Meu sogro tem Parkinson. Não dizemos "mal de", aprendemos a dizer "doença". Convive com ela há mais de 15 anos, mas nos últimos cinco perdeu o laivo de vida com qualidade que ainda restava. Já não se move. Muito menos fala. Os músculos rijos há muito lhe roubaram a expressão do rosto, deixando no lugar uma máscara que assusta os estranhos e, pior, faz com que achem que a audição e a lucidez também se foram. Infelizmente, não. Em geral a doença está associada com alguma demência, mas ela ainda não chegou de todo.

Seu derradeiro prazer era comer, mas há mais de ano, porque já não conseguia deglutir sem aspirar para o pulmão, fez uma gastrostomia e nunca mais pôs sequer água na boca. A doença é mais insidiosa do que o relato consegue ser. E só está aqui por uma razão: em uma década de convívio jamais o vi reclamar ou sofrer. Nunca. Um ascetismo que chegava a irritar. Nem por perder a autonomia, por não poder mais estar presente aos encontros de família, nem mesmo por não conseguir segurar os netos no colo. Devia ser a fé no Espiritismo. Uma única vez, anos atrás, numa consulta com o banbanbam em Parkinson em São Paulo, testemunhei seu constrangimento por não poder realizar o que o médico, um burocrata insensível, ordenava que fizesse. Mas era constrangimento, não outra coisa. No fim da consulta deixou escapar num murmúrio quase incompreensível: "É, doutor, só piora". E foi tudo.

Até hoje. Só piorou. Internações em UTI com pneumonia, total dedicação da família e todos, absolutamente todos, os recursos em vão. Cada vez mais a prisão no próprio corpo. Cada vez mais morte em vida. Nem um lamento. Mas hoje, embarcando de volta para o Rio, sendo colocado no assento do carro, ele viu um vizinho, deficiente físico, igualmente de cadeira de rodas, fazer o mesmo sozinho, sem ajuda das cuidadoras que, 24h por dia, são seus braços, pernas, corpo, mente. A imagem de como poderia ser diferente. A saudade do que pode ter sido a última visão das filhas e netos. A consciência de que nada há pela frente, senão mais desse mesmo, na melhor hipótese. Pela primeira vez, em quase 20 anos, ele desatou a chorar.

Nós choramos juntos.

posted at 21:57:59 on 02-04-2009 by Pinto - Category: Microcontos


Comentários

rmx wrote:

Je compatis, the lord only knows. :(
03-04-2009 00:58:05

Sorel44 wrote:

Se bem conheço essa raça, foi pela primeira vez em 70. Meu querido, choramos todos.
03-04-2009 08:05:52

Pedro wrote:

Vez por outra eu duvido de Deus.
03-04-2009 10:40:59

Calasan wrote:

Parece que máquina que nos mantém vivos, essa pulsação quimico-mecânica, ganha sobre-vida com o amor.
03-04-2009 11:39:34

Renato K. wrote:

Choro contigo, meu caro. Sintam-se - você, seu sogro e toda a família - abraçados, de todo o meu coração.
03-04-2009 12:30:50

googala wrote:

imagem fueda
abç
03-04-2009 17:48:04

christiana wrote:

sem palavras
03-04-2009 23:46:03

Serbão wrote:

camarada, um belo texto.
passamos por situação parecida:
minha avó de uma tacada só, teve Alzheimer e a osteoporose quebrou seu fêmur. operada, ficou com a perna mais curta. um ano e meio em cadeira de rodas, sem reconhecer mais a nós.
e assim ela foi embora em julho de 2006 - um suspiro na cama do quarto antes do jantar, e foi só.

dê um grande beijo a teu sogro. num momento dificil como este ele tem uma familia bacana que o apoia.
04-04-2009 11:48:19

300 discos importantes wrote:

Cara, vc escreve muito bem. Chorei igual a um bebê. Fiquei fã.
04-04-2009 21:04:58

bugalu wrote:

Não quero transformar esse espaço num mural de lamentações, mas.

Perdi minha mãe faz 45 dias.

Câncer, ficou doente exatos 367 dias.
No início o susto, depois ate uma "calmaria" (minha irmã é médica) e começamos o tratamento com todas as perspectivas.
Fisicamente, nada dava certo. Uns 5 medicamentos diferentes, 3 cirurgias.
Quando não dava mais, não tinha o que fazer, tiramos ela do hospital. Melhor ficar na casa dela, filhos, amigos, e não com um atendimento tecnocrata de ala "terminal" no HRMS.

Ate postei comentário sobre o filme do Benjamim Button na época.
Não tive aquela última conversa com ela. Não dava pra falar. Ela devia saber, mas queria viver.
Que falta me faz não ter tido aquela conversa, mais ainda a saudade que ja começa bater.
Mas não da pra falar.
O que será isso de esperar a morte?
Umas 3 horas antes de morrer, recuperada de um pequeno "derrame", a última coisa que ela me falou foi que não queria dar trabalho pra ninguém.
Ela achava que estava dando trabalho.
Era uma mistura estranha de tristeza, desorientação e prazer cuidar dela.
Sei lá, queria ver isso acabado, o fim deste sofrimento, menos pra mim, mais pra ela. E ela querendo ficar boa, ficar curada.
sei lá,
04-04-2009 22:23:14

Ana wrote:

Já vivi algo semelhante que quero compartilhar com vc: minha mãe com Alzheimer por 16 anos, dez deles em absoluto estado vegetativo incomunicável com nosso mundo, dez anos de profunda solidão minha e dela. Agora, é minha tia com 92 anos percorrendo o mesmo trajeto há 12. Tenho aprendido muito com essas experiências e tenho claro o que é o envelhecimento e como quero que seja o meu. Um abraço forte e apertado.
05-04-2009 07:23:20

Pinto wrote:

Obrigados a vcs todos. Especialmente ao Serbão, ao 300 discos, ao bugalu e a Ana.
05-04-2009 20:30:01


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