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Carlota

O que dizer de um dos mais badalados restaurantes de São Paulo, quando a ele se vai para um almoço injusto e decepcionante? Mencionar as coisas boas? O Carlota continua um local agradabilíssimo, perfeito para comemorar o aniversário do/a cônjuge, que ainda guarda na memória a deliciosa panelinha de cogumelos que um dia provou na filial carioca. O suflê de goiabada com calda de queijo figura entre os grandes feitos da culinária brasileira de todos os tempos. E pena que foi só.

Omitir as coisas ruins? O serviço não é o forte, o que já denotava uma certa ausência da chefe, certamente ocupada mais em administrar a merecida fama que o próprio restaurante. Mas é necessário alguém para cuidar da lojinha. O rolinho de pato, oleoso e absolutamente sem personalidade, reforçou essa suspeita. O mignon de cordeiro com risoto não estava ruim, embora houvesse manteiga em excesso. Mas a tal cataplana de frutos do mar foi um dos pratos mais sensaborosos e caros que eu jamais provei. Cozimento no ponto, porém quase incomí­vel de tanto sal. Aliás, salgado também era o preço. Três shiitakes, dois aspargos finos, três camarões médios, uma perna de polvo, uma mini-lula e algumas batatinhas numa pequena panela de cobre por 67 reais é coisa que depõe contra toda a cadeia econômica envolvida: quem produz, quem faz e, sobretudo, quem freqüenta. Nossa arriscada mania de variar fez com que chegasse à mesa uma torta de maçã que deixou saudades... da similar servida no Ráscal, por exemplo.

No final, uma conta de mais de 200 reais (sem vinho!) para duas pessoas, sendo 18 reais de um couvert composto por pães e alguns mililitros de um bom queijo derretido enseja uma experiência sublime. A nós mais nos pareceu logro mesmo.

Na mesa ao lado, um casal falando inglês especulava sobre a natureza do restaurante: "Is it French?". "Contemporary". Bidu. Muita fama e pouco proveito, muito franchising e muito valor agregado, os males da contemporaneidade são.

Nota: 6,5 miojos.

posted at 18:20:45 on 08-06-2008 by Pinto - Category: ...ou então miojo


Comentários

Zeno Gastro wrote:

Resenhista antenado é isso aí. Mais do Zeitgeist carlotense aqui: http://viajeaqui.abril.com....
09-06-2008 10:58:16

Zeno Gastro wrote:

O link não entra, entonces segue o comentário transcrito:

______________________________
Minha campanha em defesa de uma atração paulistana: Rezem pelo Carlota!

Ricardo Castanho

Sempre tive uma imagem simpática do Carlota. O restaurante paulistano foi um dos precursores de uma fórmula que, hoje, virou carne-de-vaca nas principais capitais do país: ambiente despojado+cardápio ousado. Foi assim que Carla Pernambuco, a Carlota, colocou seu nome no hall da fama da gastronomia brasileira. Primeiro foram os rolinhos vietnamitas (resultado de uma “conversa” apurada que a chef mantém com a cozinha oriental) e as criativas receitas de peixes e risotos. Aí vieram os doces (outra área nobre dessa cozinheira de mão cheia), e Carla conseguiu transformar seu suflê de goiabada com calda de Catupiry (uma reinvenção do Romeu e Julieta) em um hit nacional – copiado até pelas piores pizzarias de Manaus (é só força de expressão, não me peçam para lembrar quantas vezes comi o plágio desse suflê). No campo dos negócios, a marca avançou bem. O Carlota ganhou um irmãozinho no Rio e um local para eventos gastronômicos na mesma rua onde nasceu, o Studio 768 (de proposta interessantíssima e elogiadíssima pelos meus colegas de site, Ricardo Freire e Alexandra Forbes). Mas e a velha e boa matriz? Vem conseguindo manter o fôlego com a expansão da etiqueta Carlota? Na minha humilde e polêmica opinião, não.

Não sei se é a impossibilidade de termos duas Carlas Pernambuco, uma paulistana e outra carioca, ou se um desgaste natural de um restaurante velho de guerra, mas comer no Carlota paulistano nos últimos tempos perdeu um pouco do brilho para mim (o do Rio parece manter o frescor da juventude). No ano passado, fiz uma refeição em que o sólido transatlântico paulistano balançou. Dias atrás, ele praticamente desapareceu no mar. Se os ícones do passado ainda sustentam boas experiências gastronômicas na casa – provavelmente vou apanhar muito dos clientes que adoram apenas repetir essas receitas felizes –, outros pratos não parecem portos muito seguros. Minhas lulas grelhadas, por exemplo, tinham gosto de chapa suja; e o risoto que acompanhava o molusco (com camarão e queijo brie) era um poço de gordura.

Do outro lado da mesa, outro prato principal também decepcionava: um filé mignon duro e um ravióli de ricota com tâmara e molho de foie gras que era exemplo de confusion food.

Minha esperança (e, muitas vezes, minha cruz), é que restaurantes são “organismos” sensíveis. Da mesma forma que eles dão suas derrapadas sem motivos aparentes, eles, com uma boa chacoalhada, entram nos eixos. É o que eu espero para o Carlota. São Paulo já não é uma cidade muito turística. Perder uma das suas importantes atrações seria uma garoa chata no nosso mundo gourmet.
09-06-2008 11:00:56

Pinto wrote:

E agora corro eu o risco de não ser original nem nas resenhas. Mas não li o cara, não. Leio agora. Pelo visto não estou só no meu queixume.
09-06-2008 11:02:37

captcha wrote:

minha sugestão, esqueçam a rua sergipe e rumem para a rua mato-grosso. comida de mãe sorridente e bonitona (eu sempre chuto a canela do maridón), ainda por cima. o pato confit, o stinco e o goulash são de ajoelhar.
09-06-2008 13:39:34

Cam Seslaf wrote:

Voto com a captcha!
Minhas irmãs também tiveram uma noite de desastre no Carlota.
09-06-2008 17:32:37

Pinto wrote:

Eu sei, eu falei primeiro aqui: http://zeno.com.br/index.ph...

O problema: contrariar o desejo da coônjuja que aniversariava e lidar com o pessoal que lê Vejinha pra saber como se divertir e empesteia o restaurante.
09-06-2008 17:35:05


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