:: home :: posts passados :: etilíricas :: je me souviens :: microcontos ::


.:: post anterior :: :: :: :: navegue pelos posts :: :: :: :: próximo post ::.

Jabá escocês

Quem é este homem ensangüentado?

Eu não vi, mas minha esposa Íris viu e recomenda muitíssimo: temporada às terças e quartas, no Teatro Planetário, da Gávea, 20 horas. No Leia Mais, o texto que acompanha o programa da peça.

Há quatrocentos anos os mesmos eventos se repetem: a noite se espessa, as estrelas cessam seu brilho e os olhos não mais vêem o que as mãos irão fazer. Os quatro séculos de Macbeth, de Shakespeare, têm nos guiado, em sua linguagem terrível e retorcida, por um Inferno de som e fúria em que as duas faces da moeda do Destino podem ser simultâneas, em que o bem e o mal não são unívocos, em que o feio e o belo se misturam e em que a nobreza de um rosto valoroso pode esconder a serpente que atraiçoa.

Peça curta, concisa em sua concentração de causas e efeitos, em Macbeth a ação se acelera desde as primeiras cenas e só irá frear ao término da batalha no Quinto Ato entre Macbeth e as forças inglesas, um desfecho que infunde poucas esperanças de restabelecimento da ordem perturbada. Se a peça se inicia sob os auspícios não-naturais representados pela aparição das bruxas, não há tampouco redenção ou sensação de alívio ao final, isto é, a pacificação que sobreviria depois de eliminada a anomalia, pela simples razão de que esta pertence tanto à sociedade que lhe dá berço quanto seu contrário indissociável, a norma. Em meio às trevas de uma noite que parece nunca acabar, os crimes de Macbeth iluminam o funcionamento desta mesma sociedade, desvendando seu pecado de origem inscrito como código genético que a mancha desde o princípio. Num arranjo político e social em que o regicídio é a regra, não a exceção – dois reis são mortos durante a peça, e o próprio Duncan, personagem histórico, é apenas mais um numa longa linhagem de reis assassinados por seus sucessores –, o sobressalto noturno é companhia tão freqüente quanto os sinos, as preces, as taças de vinho maculadas e a eliminação de adversários.

Kantiano às avessas, Macbeth transforma sua máxima individual e subjetiva de conduta ("Fazer o que for preciso para tornar-se e manter-se rei") numa lei moral universalizante que banha seu reino em sangue, afoga o sono tranqüilo nos temores e respinga ambição desmesurada na audiência. Se o mais nobre dentre os nobres, o favorito da Honra e da Coragem, "o anjo mais esplendecente", sucumbiu ao desejo e caiu, o que resta a nós, do público, que acompanhamos sua queda com um misto de identificação e ojeriza, de simpatia e remorso, de indignação e anuência?

O que deveria nos espantar não é o "Como isto pôde acontecer?", e sim o "Por que isto não acontece mais vezes?". Na verdade, acontece, sim, nas várias formas de usurpação do poder justas ou injustas que testemunhamos cotidianamente, motivadas seja pela ambição, seja pelo retorno da virtude em diferentes vestes, e cada encenação de Macbeth reitera um convite incômodo a um Inferno estranhamente familiar. Sejamos todos bem-vindos.
posted at 20:21:53 on 16-08-2007 by Zeno - Category: Tectum Intuentes


Comentários

morosky wrote:

All hail, Macbeth, hail to thee, Thane of Glamis!
16-08-2007 21:24:30


Incluir comentário