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Daniel, O Pensador

"Com a palavra o jornalista Daniel Piza: 'Ter lido Nietzsche na adolescência, por exemplo, me fez muito bem' (pág. 38); 'Outra leitura de adolescência, quase no extremo oposto, foi a de Bertrand Russel' (pág. 39); 'Foi mais ou menos na mesma época que descobri o prazer de ler ensaios, e isso ocorreu com o pai de todos os ensaístas: Michel de Montaigne' (pág. 39); 'Efeito semelhante me causou Voltaire' (pág. 40); 'Também gosto de ler sobre física' (pág. 42)."

"Como se dar bem...", de Fernando de Barros e Silva, na Folha de hoje, sobre o livro "Cultura & Elegância", uma obra destinada a quem não possui nem uma coisa nem outra. A íntegra do artigo é reproduzida a seguir.

FERNANDO DE BARROS E SILVA

Como se dar bem...

Acaba de ser lançado um livro muito sintomático e sugestivo. Chama-se "Cultura & Elegância". Seu subtítulo é auto-explicativo: "o que se deve fazer e o que é preciso conhecer para ser uma pessoa culta e elegante". Trata-se de obra coletiva, organizada pelo historiador Jaime Pinsky -livre-docente pela USP e dono da editora responsável (a Contexto). Quem a idealizou foi a socialite e psicanalista Eleonora Mendes Caldeira, que assina as três páginas da apresentação.
"A proposta central do livro", nos explica madame, "é a de que uma pessoa elegante interessa-se necessariamente por cultura. (...) Cultura entendida como produção humana para deleite próprio. (...) Elegância, portanto, não é só saber vestir o corpo com a roupa certa e comportar-se adequadamente. É isso também, mas é mais. É alimentar a alma de maneira harmoniosa".
Estamos diante de algo como o "Grito dos Incluídos". Na pauta de reivindicações cada vez mais ampla do individualismo possessivo, a cultura aparece como um estilo de vida que se consome e ostenta. Ou seja: se é verdade que a cultura está mais do que nunca na moda, então é preciso emprestar-lhe um sentido que nos sirva; livrá-la da sua irritante inutilidade (coisa de derrotados!) e desligá-la de seus elos coletivos e/ou sociais (velharia de esquerdistas!). Cultura, sim, mas para "deleite próprio". "Personal culture" -bem entendidos.
A epígrafe desse manual da novíssima etiqueta nos diz: "Elegância é a arte de não se fazer notar aliada ao cuidado sutil de se deixar distinguir". Assina-a Paul Valéry. Com a palavra o jornalista Daniel Piza: "Ter lido Nietzsche na adolescência, por exemplo, me fez muito bem" (pág. 38); "Outra leitura de adolescência, quase no extremo oposto, foi a de Bertrand Russsel" (pág. 39); "Foi mais ou menos na mesma época que descobri o prazer de ler ensaios, e isso ocorreu com o pai de todos os ensaístas: Michel de Montaigne" (pág. 39); "Efeito semelhante me causou Voltaire" (pág. 40); "Também gosto de ler sobre física" (pág. 42). Talvez por modéstia, para não se fazer notar, o autor deixa de mencionar que o livro com frases de Paulo Francis, que ele também indica ("Waaal - O Dicionário da Corte"), foi organizado por... ele mesmo. Mas não se trata de auto-ajuda?
Jaime Pinsky não fica atrás. Escrevendo sobre museus, nos recomenda: "Programe-se para ver as obras de referência (afinal, todo mundo vai perguntar se você as viu, quando voltar)" (pág. 192). Numa companhia dessa, a consultora de comportamento Célia Leão está em casa: "Vale também para os vernissages a regra do "s': surgir, saudar, sorrir e sair" (pág. 210).
Há, entre os 15 textos que compõem o livro, alguns não-risíveis. Ficam, no entanto, comprometidos de antemão pela monstruosidade do conjunto, ele próprio concebido para ser sério e sofisticado, o que só faz acentuar a piada involuntária em que resulta. Guardadas as proporções, Moacyr Scliar protagoniza o seu "momento Fernando Sabino" quando este escreveu "Zélia -uma Paixão".
Serão essas as tábuas de salvação dos intelectuais: vender-se à estupidez do mercado ou render-se à estupidez dos governantes? Reduzida a ingrediente do banquete da auto-ajuda e do consumo, a cultura transforma-se em veículo do colapso do pensamento ao mesmo tempo em que dá sobrevida estéril àqueles que deveriam pensá-la de forma crítica. "Cultura & Elegância" serve como epitáfio ao túmulo onde jazem juntas as ciências humanas, a universidade pública e a esquerda. Poderia ser incluído na seção de humor ao lado do mais recente livro do Casseta & Planeta.
Fernando de Barros e Silva é editor de Brasil.
posted at 14:21:11 on 25-10-2005 by Pinto - Category: Jornal Velho


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