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03 Junho

La guerre est finie (1966)

Ativista em crise ideológica e de idade repensa seu passado, suas atuais ações e o que vai fazer da vida no futuro. Não, não é o Rui Falcão. É o Yves Montand no papel de um militante antifranquista no filme dirigido por Alain Resnais em 1966. Não é, propriamente, um filme esquisito como os demais desta semana, pois costuma ser programado com alguma (pouca?) freqüência nas boas casas do ramo, mas vai pra lista porque serviu para descobrir que eu não me lembrava de um único fotograma mais de vinte anos depois de ter visto o filme pela primeira vez, o que faz um sujeito pensar se já não está na hora de rever aquelas opiniões toscamente elaboradas à época sobre a cinefilia em geral e sobre manias e preferências em particular. Se o filme não está à altura de outras coisas que o próprio Resnais fez, ainda assim vale uma espiada pela lindeza das imagens p/b (e a cópia em DVD, lançada nos EUA pela Image, está impecável), pela excelente idéia dos flashbacks e flashforwards espalhados pelo filme, e pela seqüência do encontro inicial entre Montand e a "Aparaissant pour la première fois Geneviève Bujold", em que Resnais retarda até o limite o corte entre as cenas, explorando a capacidade da dupla de expressar uma baciada de sentimentos postos nos rostos deles – e como seria diferente? – pelo próprio olhar do espectador.

(da série Semana do Cinema Francês Esquisito no Hipopótamo Zeno)
18:19:43 - Zeno -

05 Março

Saladão de Links Numa Quarta-Feira de Cinzas

O escritor espanhol Eduardo Mendoza falando sobre o humor inglês (com ótimas citações...), neste link.

A esta altura já tá todo mundo sabendo, mas não custa repetir: que Paris, que nada - o negócio é morar em São Paulo.

O melhor texto sobre a morte do Alain Resnais (lembrança cabotina: a gente já falou dele um bocado aqui no blog) foi o necrológio panorâmico do Le Monde, aqui.

Um troço do ano passado, mas que me ajudou à beça pra descobrir o quem-é-quem miúdo (ou não tão miúdo: esse Eduardo Cunha, por exemplo, que anda mais saidinho que puta em véspera de feriado) do House Of Cards de Brasília e adjacências.

E, pra encerrar, troço longo, que merece uma atenção que não seja a do clica-e-lê, clica-e-lê: um dossiê do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial sobre as dificuldades desse troço chamado Brasil - ou, como diz um amigo mais instruído, "cada vez que escuto a expressão 'projeto de país', sinto vontade de sacar a 'Dialética do Esclarecimento' e dar na cabeça do sujeito".
19:31:08 - Zeno -

10 Julho

Medos privados em lugares públicos (2006)

Junte um diretor de oitenta e tantos anos que já fez de tudo na vida, incluindo uma dúzia de obras-primas desde os anos cinqüenta (duas delas resenhadas aqui), um conjunto de atores de primeiríssima e um texto redondo quinem o escocês que um dos personagens bebe aos galões: o resultado é essa maravilha de filme, que proporciona aqueles sorrisos de prazer estético durante a projeção, provocados por cenas de inteligência explícita na tela. Resnais põe a câmera sempre no lugar certo, sem dificuldades, e quando usa virtuosismo, o faz de maneira discreta e inesperada: bom exemplo é a seqüência próxima do final, na imobiliária - um cenário tantas vezes filmado sempre do mesmo ângulo -, em que Resnais retira a parede dos fundos da imobilária, bota a câmera de modo a filmar os atores não mais de frente, enquadrando os móveis, as janelas e as mesas a ressaltar o absurdo cômico do arranjo espacial do escritório e dos personagens. A seco, se inquirirmos o desenho traçado pelos seis personagens ao longo do filme, nenhum deles é particularmente interessante, e é só mais uma qualidade do filme o despertar nosso interesse por personagens a princípio pouco facetados (talvez pecado de origem da peça inglesa que serviu de base ao roteiro, do mesmo autor que Resnais filmara antes no díptico Smoking/No smoking). Um e outro reparo podem ser feitos, a começar por um enxugamento que seria bem-vindo das 54 minisseqüências que compõem o filme (não, não contei; quem fez isso foi o sempre preciso Jonathan Rosenbaum em sua crítica ao filme), mas são picuinhas numa obra que esbanja inteligência. Rosenbaum, aliás, faz um comentário interessante sobre o uso aparentemente contraditório do formato cinemascope no filme, já que 99% da ação se passa entre quatro paredes, o que tornaria desnecessária a generosidade do retangulozão de 1 para 2:35 do scope. Meu palpite é que se trata de mais uma virtude pública do filme adaptada a lugares privados - saia de casa, caro leitor, cara leitora, e vá agora mesmo para o cinema público mais próximo para ver com os próprios olhos e neurônios.
10:38:41 - Zeno -

31 Maio

Nuit et Brouillard (1956)

Lançado em DVD no ano passado pela Criterion americana, este é o mítico documentário de Alain Resnais, o último dirigido por ele antes de passar aos longas de ficção (com “Hiroshima, Meu Amor”), e que trata dos campos de concentração alemães com um rigor ético e estético poucas vezes igualado e nunca superado, mesmo que o assunto tenha produzido uma tonelada de filmes nas décadas seguintes. Nas palavras do melhor crítico norte-americano de cinema dos últimos e não tão últimos tempos (ele tá na ativa desde os anos setenta), Jonathan Rosenbaum, os 31 minutos do curta-metragem de Resnais fazem “A Lista de Schindler” parecer desenho animado. O título, Noite e neblina, vem do título do livro de Jean Cayrol, Poèmes de la nuit et brouillard, que por sua vez tirou a expressão do nome do decreto alemão, Nacht und Nebel, que estipulava a deportação para locais secretos de pessoas acusadas de conspirar contra o regime nazista. Ex-prisioneiro do campo de Maithausen, Cayrol escreveu o texto que acompanha as imagens do filme, e o restante da ficha técnica é um who’s who do que seria o cinema francês nas décadas seguintes: o produtor Anatole Dauman tem no currículo filmes de Godard, Schlöndorff, Wenders e foi quem bancou a grana para que Oshima fizesse “O império dos sentidos” e a continuação “O império das paixões”. A fotografia é de Ghislain Cloquet, que depois faria “Le Trou”, do Becker, “Trinta anos esta noite”, do Malle, “Mickey One”, do Arthur Penn (resenhado aqui no blog) e “Tess”, do Polanski. Como assistente de Cloquet, Sacha Vierny, que fotografaria depois “Bela da Tarde” e os filmes de Peter Greenaway. Como assistente do próprio Resnais, Chris Marker, que mais tarde ficaria conhecido por seus filmes-ensaio, misturando ficção, discussão teórica e documentário, como “La jetée” (que inspirou a trama de “O exterminador do futuro”). O remate dessa ficha técnica impressionante é a música contida e distante que comenta as imagens do filme, composta por Hans Eisler, antigo colaborador de Brecht.

(da série Semana do Cinema Francês Esquisito no Hipopótamo Zeno)

(agradecimentos a jpcv, pelo presentão)
16:12:43 - Zeno -

25 Fevereiro

Filmes de 2007

O banzo é inevitável. Depois que os pilantras dos Coen ganharam o Oscar ontem (o que faz com que eu tenha de ver o filme), topo com o novo formato do Cinesesc para a lista dos melhores filmes exibidos no ano passado (dica do blog da Ilustrada) e descubro que 2007 deve ter sido meu pior ano em freqüência cinéfila (e daí?, diria com justeza o outro). Dos 263 filmes internacionais exibidos no ano passado, vi apenas 23, incluindo uns infantis em companhia de meu filho. Dos 68 nacionais, só 11. Como no ano passado, a tristeza de ter ficado em casa mais vezes do que deveria não serve para desautorizar os pitacos, portanto a eles: melhor filme não-hollywoodiano, Medos Privados em Lugares Públicos, Resnais mostrando aos jovens como se dirige, mesmo que o material seja de segunda; do cinemão, o estupendo Ultimato Bourne, que ainda está por merecer uma análise séria à altura das novas questões que propõe. Dos nacionais, nenhum memorável, a não ser que a gente desloque o Babenco pro nosso lado e fique com O Passado. Eu e o cinema já estivemos com melhor saúde.
10:12:52 - Zeno -

10 Dezembro

Lista cinéfila de fim de ano

Os Cahiers du Cinéma publicaram recentemente um livro bacanudo, editado por Claude-Jean Philippe, com o título Cem Filmes Para Uma Cinemateca Ideal. A partir de uma consulta a 78 críticos e historiadores de cinema, foi feita a lista dos cem filmes, lista que segue abaixo e no Leia Mais. O número ao lado de cada filme é o total de votos obtidos. Na contabilidade final, alguns suspeitos de sempre, muitas novidades e surpresas. O perrengue, como sói, é fazer a tradução mental do título francês para descobrir de que filme se trata.

Citizen Kane (Orson Welles) 48
La Nuit du chasseur (Charles Laughton) 47
La Règle du jeu (Jean Renoir) 47
L’Aurore (Friedrich Wilhelm Murnau Murnau) 46
L’Atalante (Jean Vigo) 43
M. le Maudit (Fritz Lang) 40
Chantons sous la pluie (Stanley Donen et Gene Kelly) 39
Vertigo (Alfred Hitchcock) 35
Les Enfants du Paradis (Marcel Carné) 34
La Prisonnière du désert (John Ford) 34
Les Rapaces (Eric von Stroheim) 34
Rio Bravo(Howard Hawks) 33
To Be or Not to Be (Ernst Lubitsch) 33
Voyage à Tokyo (Yasujiro Ozu) 29
Le Mépris (Jean-Luc Godard) 28 [Leia mais!]
12:33:30 - Zeno -

11 Agosto

The Singing Detective (1986) Parte II

Bueno, vistos os seis episódios da série dá tranqüilamente para concordar com os fãs ardorosos do troço (no Imdb, por exemplo, o seriado atinge 9.2 de aprovação entre os usuários; acho que é o maior índice que já vi; o Poderoso Chefão, por exemplo, tem 9.1) e dizer que é das melhores coisas já feitas para o antigo tubo luminoso, atual display de cristal líqüido, que enfeita a sala. Há todo um conversê nos sites especializados a respeito dos traços pós-modernos do seriado e de como isso teria influenciado gente como o pilantra do Charlie Kaufman (valha-me), mas o melhor é deixar isso de lado e se concentrar 1) no modo pelo qual o seriado apresenta uma investigação da memória como doadora/organizadora de sentido (perdão), e aí a referência é o Resnais e - por que não? - o bom e não-confiável Proust; e 2) nos diálogos e monólogos escritos pelo Dennis Potter, uma incrível sucessão de pontos altos ao longo de seis horas, num ritmo que parece impossível de se obter mas que está lá, cintilando na boca de um bando de atores ingleses que conhecem o ofício, a começar pelo ator principal, Michael Gambon, que deveria ter sido canonizado depois do que ele fez na série.

[pra mó de comparação, vi a refilmagem do seriado em versão longa-metragem, de 2003 ("Crimes de um Detetive", em português), com Robert Downey Jr e Mel Gibson nos papéis principais, e a coisa toda é um exercicício didático de como se pode arruinar, cena após cena, algo que era brilhante na versão original]

Pra encerrar, uma fala do personagem do Michael Gambon, o escritor preso a uma cama de hospital, a respeito da arte de se escrever romances policiais e de como isso poderia se chamar Vida: Modo de Usar, se um outro escritor danado já não tivesse usado esse título antes:

"Só soluções, nenhuma pista. É isso que os idiotas querem. É assim que funciona a porcaria do romance: 'ele disse', 'ela disse' e descrições de como era o céu. Eu gostaria que fosse ao contrário. Só pistas. Nenhuma solução. É assim que as coisas são. Muitas pistas. Nenhuma solução."

(parte I aqui)
13:00:31 - Zeno -

09 Janeiro

Filmes de 2006

E começou a temporada de caça às listas de melhores filmes do ano passado. Neste link, cortesia do pessoal da revista Contracampo, a lista completa dos filmes exibidos no ano passado, na praça do RJ (mais ou menos a mesma de SP). Diletantismo ou perversão, acho sempre prazeroso passar os olhos e descobrir quantos filmes novos vi no ano passado – fica o convite para o nosso público fazer o mesmo. Do total de uns 320 filmes, vi apenas 37, o que desqualifica de antemão meus pitacos – uêba. Dos filmes ditos independentes ou de circuito alternativo, nada memorável a registrar – bom, vá lá: Caché, do Haneke, tinha boas idéias. Do cinemão, duas obras-primas, Cassino Royale e Munique, e dois na trave, Flags of Our Fathers (que ainda não estreou comercialmente) e Piratas do Caribe 2. E é só.
Já a lista do Jonathan Rosenbaum, nosso guru de sempre, não dá nem pra postar como fizemos em anos anteriores (2004 e 2005), tamanha a quantidade de filmes que não chegaram aqui. A lista da revista Film Comment, reproduzida na íntegra no Leia Mais abaixo, foi citada no blog de cinema da Ilustrada da Folha de S. Paulo. [Leia mais!]
19:07:05 - Zeno -